Agência SAFRAS - 29 de junho de 2012

RIO+20

 Agronegócio marca presença e apresenta sua

contribuição para o desenvolvimento sustentável

 

Por Dylan Della Pasqua

Editor-chefe da Agência SAFRAS

 

                Para o agronegócio nacional, a Rio+20 - a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável - foi a oportunidade de se fazer presente nas discussões relacionadas à preservação ambiental e à erradicação da pobreza e fome no mundo. Vinte anos antes, na Eco 92, o setor sequer foi convidado e nada pode fazer para tentar se defender das acusações e corrigir o papel de vilão que, involuntariamente, acaba assumindo em debates neste sentido.

 

                Se o setor soube ou não aproveitar esta oportunidade, esta é uma questão de ponto de vista. Mas, ao menos, marcou presença na festa e pode apresentar ao mundo não só seus argumentos de defesa, mas alguns exemplos de práticas e legislações que buscam o desenvolvimento sustentável. Não faltaram discussões, debate e protesto no AgroBrasil, espaço oficial do setor durante a Conferência, que ocorreu entre os dias 13 e 22 de junho,  no Rio de Janeiro.

 

                Para a senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Kátia Abreu, a inclusão do setor produtivo nas discussões em torno da sustentabilidade na Rio+20 foi muito relevante. “Em 1992, não participamos nem das visitações. Por isso, estamos felizes em fazer parte, nos fazendo presentes. Estamos mostrando o que estamos fazendo e que nos importamos com a preservação do meio ambiente e que estamos comprometidos com a sustentabilidade”, reiterou a senadora, durante o evento. Para Abreu, todas as teses ambientalistas são teorias e quem “as coloca em prática é o setor produtivo”.

 

Senadora Kátia Abreu, presidente da CNA

   

                A CNA tomou para si a iniciativa de reunir o agronegócio e mostrar sua importância no contexto sustentável. A senadora Kátia Abreu foi a grande estrela do setor na Rio+20. Esteve presente em todos os eventos em se fazia necessária a defesa do agronegócio. Protagonista e representativa, também foi o principal alvo dos ataques de ambientalistas e de manifestações contrárias ao setor produtivo brasileiro.

 

                “Estamos contentes com esta quebra de paradigmas. Deixamos de ser só assistentes e colocamos fim ao monopólio das discussões, que eram restritas aos ambientalistas”, frisou. A senadora também contradisse os críticos da Rio+20. “Não posso admitir que reconheçamos que em 20 anos nada tenha evoluído em termos ambientais. A questão do meio ambiente é tema recorrente em todos os eventos. Virou uma mania. Uma mania positiva”, afirmou a presidente da CNA, acrescentando não esperar da Rio+20 medidas imediatas, mas uma mudança de comportamento.

 

                 Sobre a ausência de chefes de Estado dos países desenvolvidos, Abreu disse entender a falta de importantes líderes. Para ela, estes chefes não foram à Conferência por não terem condições, no momento, de cumprirem com seu papel. “Estes países já desmataram tudo. A contribuição deles neste momento seria mudar a matriz energética ou financiar os países emergentes que estão adotando práticas sustentáveis. Com a atual situação da economia destes países, eles seriam muito cobrados aqui e pouco poderiam apresentar”.

 

                Em relação ao Código Florestal, Kátia Abreu lembrou que o Brasil tem uma legislação muito rígida. Para ela, a agropecuária nacional chegou ao atual nível de produtividade e de adoção de praticas sustentáveis, mais pela inovação tecnológica do que pelo caráter coercitivo da lei. “Assumimos voluntariamente metas de diminuição do desmatamento e da emissão de carbono. Não estou pregando que não tenhamos leis, só criticando os exageros. Leis que não ajudaram neste desenvolvimento”, explicou.

 

 

Economia verde

 

                A senadora fez questão de enumerar os principais desafios à consolidação da economia verde e criticou duramente os ataques ideológicos. “O capitalismo é que vai assegurar a inclusão das práticas sustentáveis. Esse produto que vai surgir da economia verde tem um custo e alguém vai pagar por isso”, disse.

                Outro ponto levantado pela presidente da CNA foi a necessidade de enfrentar os custos da mudança de matriz energética e também remunerar aquele produtor que deixou de desmatar. “Os produtores têm uma tarefa árdua. Não é fácil produzir mais e preservar o meio ambiente. Este processo exige a remuneração adequada”, alertou.

 

                A adoção da economia verde tem o custo da sustentabilidade, que deverá ser repassado ao consumidor final. Outro obstáculo, segundo a senadora, é a assimetria entre os países. “Aqueles que estão dispostos a trabalhar sob os preceitos da economia verde não poderão concorrer com quem não respeita as normas”.

 

                O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Mendes Ribeiro Filho, destacou a pujança do agronegócio nacional e ressaltou a parceira público-privada, entre o Mapa e as principais entidades representativas do setor. “É a maior parceria nestes níveis que eu conheço”, afirmou, durante a abertura oficial do espaço AgroBrasil, na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20.

 

                Mendes aproveitou a ocasião para estender o convite à sociedade urbana “que precisa conhecer o que o agronegócio tem feito para levar alimento de qualidade à mesa do brasileiro”. O ministro sugeriu ainda que o Mapa e a CNA leve o espaço para todo o Brasil, com o intuito de mostrar à população “porque a agropecuária brasileira chegou no nível de excelência atual”. O ministro frisou ainda a importância da Rio+20, classificando a Conferência como um paradigma histórico. “Estamos discutindo o agronegócio com na Rio+20. Estamos discutindo temas juntamente como o Ministério do Meio Ambiente”, disse.

 

  

APP global

 

            As palestras, coletivas e apresentações que ocorreram nos 10 dias de Conferência no Píer Mauá, que abrigou o espaço AgroBrasil, levantaram alguns posicionamentos, indicaram caminhos e apresentaram exemplos da agropecuária sustentável praticada pelos produtores brasileiros. Um dos pontos colocados foi a proposta de expandir para outros países algumas exigências do novo Código Florestal brasileiro, com destaque para as APPs (Áreas de Preservação Permanente).

 

                A proposta de adoção de APPs Mundiais visou apresentar ao mundo um exemplo positivo de preservação ambiental do Brasil. “Não queremos desrespeitar a soberania dos países, mas temos autoridade para sugerir as APPs globais”, a senadora Kátia Abreu. A falta de problemas mais graves de disponibilidade de água no Brasil e a adoção da preservação de matas ciliares dão ao Brasil as condições para levar adiante esta proposta.

 

                Para Kátia Abreu, não há contradição no fato da CNA defender a preservação de matas ciliares em âmbito mundial e debater a questão no Código Florestal. “Nenhum parlamentar duvida da importância das APPs. O problema é a questão gente, pessoas que habitam as margens dos rios. Não temos recursos para tratar essa questão”, enfatizou, acrescentando ser por esta razão que a CNA quer que a decisão sobre a extensão das APPs seja decida pelos estados, que poderão avaliar a questão com a especificidade que ela demanda.

 

                A senadora reiterou que preservar o ambiente e adotar práticas sustentáveis valorizam a propriedade e contribuem para o aumento da produção. “É impossível pensar a produção hoje sem ser sustentável. Todos somos ecologistas e defendemos a sustentabilidade, mas cada setor tem as suas prioridades”, ressalvou. “É claro que nesse processo, a agropecuária cometeu erros, mas estamos dispostos a corrigi-los, mas levando em conta a questão social e sob um ambientalismo científico, e não ideológico”, concluiu a senadora.

 

                A proposta de adoção de APPs (áreas de preservação permanente) globais é uma ideia desafiadora, mas muito adequada. A avaliação foi feita pelo presidente da Agência Nacional da Água (ANA), Vicente Andreu Guillo. Segundo Guillo, a sugestão faz adequadamente a ponte entre a preservação ambiental, a produção e a proteção aos recursos hídricos. Para o presidente da ANA, a proposta poderia ter ocupado uma posição mais relevante nas discussões da Rio+20. Guillo aproveitou a ocasião para fazer a defesa do setor produtivo. “O principal problema ambiental da água não é na agricultura, mas, sim, o saneamento básico. A falta de tratamento da água é um dos maiores problemas do país em termos de indicadores de qualidade de vida”, enfatizou.

 

 

Espaço AgroBrasil, inauguração oficial

 

                O diretor-presidente da Embrapa, Pedro Arraes, também classificou o projeto como interessante e destacou o momento conveniente em que a discussão vem à tona. “Estamos passando do período de discussão do Código Florestal, onde a necessidade de informação e pesquisa terá que crescer para subsidiar as políticas públicas”. Arraes ressaltou, no entanto, que a ideia de APP global precisa ser tratada com a diversidade que ela merece. “Esta é uma lição do Brasil ao mundo, mas precisará ser adaptada à realidade de cada país”, disse, acrescentando que é necessário criar as bases técnicas para levar a ideia adiante.

 

                Para o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Maurício Lopes, a adoção de APPs globais é a oportunidade do Brasil assumir posição de protagonismo na busca pela sustentabilidade. O diretor, no entanto, admite que a sugestão, elaborada pela Embrapa, pela Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA) e pela Agência Nacional da Água (ANA), ainda tem que ultrapassar alguns obstáculos para ser implementada. “Precisamos moldar a APP Global do ponto de vista técnico, ambiental e científico, respeitando as especificidades de cada país”, afirmou enumerando ainda o a questão jurídica e o componente da comunicação como pontos a serem enfrentados.  “Necessitamos de um esforço de aproximação com a sociedade”.

 

                Ao falar do Código Florestal, Lopes destacou o fato do Brasil ter tido a coragem de “abraçar uma situação complexa. O País saiu na frente. Que outro país tem uma legislação ambiental como a nossa?”. O diretor da Embrapa admitiu que, apesar de pujante e sustentável, a agricultura brasileira tem dificuldades, mas que estas serão superadas, através da inovação tecnológica, apontando sistemas de produção como o plantio direto e a integração lavoura, pecuária e floresta.

 

 

 

Índice de sustentabilidade

 

                A criação de um índice global de desenvolvimento sustentável, com o intuito de permitir a abertura de mercados para países que adotam práticas ambientais corretas, e a constituição de um fundo internacional para financiamento de tecnologia, que desenvolva a agricultura, são os principais pontos do Documento de Posicionamento do Setor Agropecuário a Rio+20.

 

                A presidente da CNA, senadora Kátia Abreu, disse que, a partir da criação de um índice global de desenvolvimento, os países que produzem de forma sustentável poderão obter remunerações mais adequadas para manejo e comercialização de seus produtos, premiando os serviços ambientais. Abreu disse que o índice não é apenas uma ideia ou uma sugestão, que já há trabalho concreto em cima da adoção e que a CNA pretende anunciá-lo em breve.

 

                A economista da CNA, Rosemeire Santos, afirmou que a ideia do índice é contemplar as práticas sustentáveis, levando em conta aspectos sociais, ambientais e econômicos. “Também vamos propor um ranking com os países que adotarem o índice”, completou. Entre os temas destacados pelo documento, destaque para tecnologia e inovação, economia verde trabalho decente e meio ambiente. “Com o uso de tecnologia e a recuperação de áreas degradadas, o Brasil poderá liberar até 70 milhões de hectares nos próximos anos e produzir em torno de 400 milhões de toneladas de grãos e fibras”, projeta a senadora.

 

 

PROPOSTAS DO SETOR ENCAMINHADAS À PRESIDENTE DILMA

 

    Durante a Rio+20, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) encaminhou à presidente da República, Dilma Rousseff, uma carta, reunido as propostas da CNA para os chefes de Estado que participaram da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.

 

Veja abaixo as propostas:

 

1. Amazônia

Só a tecnologia pode garantir o desmatamento zero na Amazônia. Grande parte do que até aqui ocorreu na região decorre da precariedade de meios que ainda predomina. Com baixa rentabilidade do sistema produtivo, que impede a aquisição de tecnologia, esse quadro tende a se perpetuar, mantendo tensão constante entre produção e floresta. A situação afeta, sobretudo, os pequenos e médios produtores rurais.

2. Serviços ambientais

O passivo ambiental é fruto do descaso e despreparo das gerações que nos precederam e nos legaram os desafios presentes. Não é justo que esta geração arque sozinha com uma conta histórica, impagável de uma só vez. Portanto, os governos precisam encontrar mecanismos de atenuar os custos presentes, diluindo-os no tempo.

Os países ricos foram beneficiários do desenvolvimento sem as regras e amarras que hoje pesam sobre os países de desenvolvimento tardio. É justo que contribuam pelos benefícios ambientais que recebem gratuitamente desses países.

3. Redução de Emissões

A CNA está lançando uma ferramenta eletrônica para dar suporte ao processo de remuneração do produtor rural pela redução de emissões de carbono e gases de efeito estufa. Trata-se da organização do Mercado Agropecuário de Redução de Emissões (MARE), contribuição valiosa para a defesa do meio ambiente. Propicia justa remuneração aos que o preservam e um mecanismo de compensação para aqueles que não podem, no curto prazo, reduzir suas emissões.

4. APP Global 

A CNA, Embrapa e a Agência Nacional de Águas (ANA) lançaram proposta de universalizar o princípio da Área de Proteção Permanente (APP) nas nascentes, margens de rios e áreas de recarga de aquíferos subterrâneos, como forma de proteger a integridade dos cursos d’água. No Brasil, APP é lei. Sendo um conceito universal, benéfico aos rios de todo o planeta, deve ser estudado e aplicado conforme as peculiaridades de cada país.

5. Fundos para terra degradada

Nenhum produtor é inimigo de sua própria terra. Degradação é fruto da pobreza. É a tecnologia que gera a prosperidade. Daí a necessidade de integrar ecologia à economia, sem transformar a defesa ambiental num tribunal. A prioridade não pode ser punir, mas instruir e viabilizar a recomposição, por meio de pesquisa, financiamento e incentivos ao uso de tecnologia.

6. Extensão Rural

Os insumos tecnológicos agropecuários precisam ser democraticamente disseminados. Essa é a grande revolução agrícola que a humanidade carece: a distribuição do conhecimento, fonte maior da prosperidade e justiça social.

7. Assimetrias

É preciso reduzir as assimetrias de regulamentação ambiental entre as nações, sem ferir o princípio da soberania. Para isso, fazem-se necessárias conferências internacionais como esta, com efetivo apoio dos governos.

 

 

 

Código Florestal

 

                O polêmico Código Florestal brasileiro não foi esquecido durante as discussões da Rio+20. Apesar de todas as concessões, o novo Código pode apresentar resultados mais positivos para a preservação ambiental, já que o texto anterior, de 1965, não era cumprido. A avaliação é do advogado especializado em direito ambiental da Universidade Federal de Viçosa, Lucas Carvalho, que palestrou no espaço AgroBrasil. "Mesmo sendo mais permissível, na prática teremos propriedades rurais ambientalmente mais corretas”, completa.

 

                Para o advogado, que participa do Projeto Mudar Gerais, o novo Código não vai aumentar o desmatamento, mas diminui a recomposição de florestas. “Mas existem no texto instrumentos de incentivo a esta recomposição que precisam ser efetivamente implantados. Não podemos falar com certeza se o código é melhor ou pior que o antigo, mas este texto pode ser cumprido, diferentemente do antigo”, disse.

 

                Entre os pontos mais controversos do Código, Carvalho destaca a anistia aos produtores que desmataram até julho de 2008. Para o advogado, a retroatividade da lei não está correta. Para ele, a anistia teria que ter validade a partir da vigência da nova legislação. Outro ponto que gera muita discussão é o referente ao uso consolidado.

 

                Quem se posiciona contrário à norma lembra que pelo atual Código o infrator até 2008 não será penalizado e quem cumpriu a lei será prejudicado. “Isso tira a credibilidade da norma”, afirma o advgado. Já os favoráveis ao uso consolidado destacam a manutenção da área produtiva e o impacto social da decisão, além de ressaltar a impossibilidade de cumprimento da legislação anterior. “Também temos que lembrar dos programas governamentais que estimularam o desmatamento e o descumprimento da lei”.

 

                Os pontos positivos em termos ambientais do novo Código, segundo o advogado, são o pagamento por serviços ambientais, que gera um estímulo grande, o cadastro ambiental rural e o programa de regulamentação ambiental.

 

 

Rui Prado, presidente da Famato

   

                O economista da Universidade e também participante do Projeto Mudar Gerais, Pedro Máximo, lamenta que a discussão em torno do novo Código pode não conduzir a uma solução. “É difícil encontrar parâmetros. Em alguns casos, o antigo código inviabilizaria a produção. Mas o novo gera casos em que a preservação exigida é inferior ao desejo dos próprios produtores”.

 

                Para ele, parâmetros únicos não atendem à realidade do Brasil, já que a lei e a atuação governamental deveriam observar as peculiaridades regionais. “Há uma contradição muito grande entre os parâmetros de proteção e o tratamento diferenciado a pequenas propriedades. As respostas são específicas e fica difícil generalizar”, completa o economista. 

 

                O presidente da Federação da Agricultura do Estado do Mato Grosso (Famato), Rui Prado, defendeu a ideia da adoção de um Código Florestal Mundial. “Quando se fala em meio ambiente não existem fronteiras. Sabemos que é uma empreitada difícil, mas precisamos ter este conceito em nossas cabeças”, disse Prado. “Precisamos pensar como planeta. O produtor rural ficou muito tempo olhando apenas para seu umbigo”, falou.

 

                Com base nas projeções de oferta e demanda de alimentos, Prado sugere uma discussão racional e menos emocional, pois “precisamos que fechar uma equação sem equilíbrio”. Números da FAO indicam que entre 2012 e 2050, a população mundial pulará de 7 bilhões para 9 bilhões de habitantes. O consumo de cereais deverá passar de 2,4 bilhões para 3 bilhões de toneladas. “São cerca de 580 milhões de toneladas a mais. O Brasil precisaria de um crescimento de 3,6 vezes para atender esta demanda”, lembra o presidente da Famato.

 

Iniciativas do agronegócio brasileiro em

prol do desenvolvimento sustentável

 

CLIMA  

 

                Apesar das controvérsias, as mudanças climáticas causarão impactos para a agricultura. Na avaliação do presidente da Comissão de Meio Ambiente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Assuero Veronez, o setor tem que se antecipar e ser proativo, “transformando uma dificuldade em oportunidade”.

 

                A recomendação de Veronez foi feita durante seminário no espaço AgroBrasil, na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20. Na ocasião o Instituto CNA explicou duas ações no sentido de se antecipar ao problema climático: a Política de Governança Climática da Agropecuária (PGCA) e o Mercado Agropecuário de Redução de Emissões (MARE).

 

                Assuero destacou o compromisso da CNA em ser protagonista nesta questão e por isso está colocando em prática estes programas. “O mercado de emissões é uma oportunidade do produtor em obter renda. Teremos benefícios econômicos. Também queremos incentivar que os produtores adotem os sistemas do Programa ABC – Agricultura de Baixo Carbono”, disse, lembrando que os produtores que enfrentam restrição no uso de sua propriedade precisam ser remunerados por isso.

 

                O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato), Rui Prado, apresentou o Projeto Verde Rio, que colocou em prática no Estado o mercado de redução de emissões. “Temos que mostrar e valorizar os ativos ambientais do setor produtivo, amenizando um pouco o impacto na mídia das cobranças em torno do passivo”, explicou.

 

                Através de uma ação conjunta com o Instituto Ação Verde, uma organização não governamental, o Projeto Verde Rio já tem negócios realizados de R$ 1 milhão com crédito de carbono, captando recursos em empresas e utilizando a mão de obra da população ribeirinha para replantar mata nativa nas margens dos rios. “Saímos do discurso e partimos para a prática”, sentenciou.

 

                O presidente do Instituto Ação Verde, deputado Carlos Avalone, ressaltou que o projeto está mostrando que a remuneração por redução na emissão de carbono já pode ser feita. “O Verde Rio é um exemplo concreto de um projeto com responsabilidade e resultado sócio-ambiental”, concluiu.

 

COOPERATIVISMO

 

                O cooperativismo está alinhado na proposta de construir um mundo melhor, já que é um sistema comprometido com a sustentabilidade, tanto em termos econômicos como social e ambientalmente. A avaliação foi feita pelo presidente do Sistema OCB/SESCOOP, Márcio Lopes de Freitas.

 

                Freitas lembrou que 2012 é o Ano Internacional do Cooperativismo, afirmando que “mais do que a comemoração de um ano, o significado transparece o reconhecimento mundial do papel do cooperativismo, que foi capaz de mitigar os efeitos da crise econômica internacional”. O presidente reiterou que mesmo com o agravamento da crise de confiança no sistema financeiro, o cooperativismo cresceu, disponibilizando um volume crescente de crédito, enquanto as instituições tradicionais seguraram a oferta de capital. “As cooperativas supriram esta demanda por credito”, completou.

 

                “Precisamos de um cooperativismo forte e que o nosso papel seja reconhecido pela sociedade”, afirmou Freitas, usado como exemplo a participação do setor no agronegócio. O presidente lembrou que 48% da produção agropecuária brasileira passará pelas cooperativas. Além de ressaltar a importância de ser o ano internacional, o presidente do Sistema OCB destacou a relevância do cooperativismo estar na pauta oficial da Rio+20. “Precisamos bater tambor e ecoar dentro da Conferência, mostrando o nosso caráter sustentável”, concluiu.

 

                A diretora da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), Betsy Dribben, destacou o crescimento da economia brasileira, ressaltando a grande participação do cooperativismo esta expansão. “O cooperativismo tem que fazer parte do cotidiano de todos. Isso já existe no Brasil e é exemplo para o mundo”, frisou.

 

                Seguindo nesta linha, o presidente da Embrapa, Pedro Arraes, destacou o avanço das cooperativas brasileiras e como o agronegócio do País se desenvolveu de forma sustentável. “Temos muito o que mostrar na Rio+20, como o Programa ABC e o Projeto Biomas”, exemplificou. “Nós temos que nos orgulhar do Brasil. Construímos a agricultura mais sustentável do planeta, temos a agricultura mais verde do planeta”, ratificou, ressalvando que o setor tem muito a crescer e que vai atingir este crescimento através da pesquisa e junto com o cooperativismo. 

 

                Representando o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o secretário do Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo, Erikson Camargo Chandoha, assegurou que o governo federal está fazendo ações fortes em prol do sistema cooperativista. “Isso ficou evidente no esforço desprendido para incluir o cooperativismo na pauta oficial da Rio+20”, indicou. O secretário lembrou ainda que o governo, junto com o setor, está enfrentando o desafio da sustentabilidade e de tornar “o mundo melhor ambientalmente”.

 

Espaço AgroBrasil, Píer Mauá

 

 

BIOENERGIA

 

                A bioenergia contribui e tem potencial para auxiliar ainda mais na busca pela economia sustentável. Tanto biodiesel como etanol têm um papel importante na matriz energética brasileira e trazem benefícios para a sustentabilidade. As conclusões resultaram do seminário “Bioenergia: Potencialidades e Desafios no Brasil”, realizado no espaço AgroBrasil.

 

                O professor e coordenador do Projeto Biodiesel da Universidade Federal de Viçosa (MG), Aziz Galvão da Silva, apresentou o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), lançado no início de 2004 pelo governo federal, com “objetivos ambiciosos, incluindo metas sociais”. Segundo o professor, o grande diferencial do Programa, através do selo combustível social, é o enfoque nos fatores sociais, visando emprego e renda para a agricultura familiar.

 

                O sucesso do programa pode ser medido pela antecipação nas metas de mistura do biodiesel no diesel. Inicialmente, a mistura de 5% era projetada para 2013. O B5, no entanto, foi adotado já em 2010 e já se projeta a implementação do B10. “A ideia inicial era a utilização da mamona e de outras matérias primas. Mas, hoje, 80% do programa se baseia na soja, uma cadeia mais organizada, mesmo que a soja possua apenas 18% de óleo”, explicou. O professor destacou o caráter positivo do biodiesel em favor da segurança alimentar e do desenvolvimento rural. “O biodiesel é muito importante para o Brasil. Mas, como toda a atividade econômica, tem impacto ambiental”, ressalvou.

 

                O gerente de Sustentabilidade da Unica – União da Indústria de Cana-de-Açúcar, Luiz Fernando do Amaral, lembrou que o etanol reduz em 90%¨a emissão de gases de efeito estufa, na comparação com a gasolina, levando em conta todo o processo de produção. Destacou ainda o fato de todas as usinas associadas à Unica produzirem bioeletricidade, a partir do bagaço da cana.

 

                “As usinas são autossuficientes em energia e 30% delas ainda vendem o excedente”, completou, adicionando que a produção de energia hoje é de 1.000 mega watts e o potencial para 2020 é de 15 mil, o equivalente a três usinas Belo Monte. “Nos falta legislação adequada e investimentos tecnológicos”. Segundo Amaral, a cana tem papel essencial na busca da economia pós petróleo. “A experiência do setor sucroenergético é extremamente relevante na busca pela sustentabilidade. Porém, diferentes cadeias agropecuárias exigem as ferramentas adequadas e específicas”, alertou.

 

EXEMPLOS

 

                A principal defesa do agronegócio nacional às investidas de grupos ambientalistas e a ratificação do caráter sustentável da agropecuária brasileira podem ser bem compactados nos exemplos. No caso do Mato Grosso do Sul, dois “cases” mostram o cuidado do setor com o desenvolvimento sustentável: o programa Novilho Precoce e a Pecuária Orgânica do Pantanal.

 

                A Associação do Novilho Precoce engloba 230 produtores e um rebanho de 600 mil cabeças. Desde que foi fundada, há 14 anos, a Associação contabiliza mais de 500 mil abates. O Programa se firma na parceria produtor, frigorífico e supermercados e abate cerca de 65 mil cabeça por ano. “Isso agrega valor ao produto. A produção responsável faz parte de nossa filosofia, dentro de normas e regras estabelecidas, que envolvem bem estar animal, gestão, questões trabalhistas, entre outros”, explica o presidente da Associação, Alexandre Scaff Raffi.

 

                Entre as vantagens do Novilho Precoce, o presidente enumera o maior índice de produtividade, o menos risco de acidentes, uma gestão econômica mais eficiente e uma maior consciência ambiental. “Se produz mais em uma mesma área, há um maior sequestro de carbono e uma menor emissão de gases de efeito estufa. Portanto, temos um sistema de produção altamente sustentável”, assegura Raffi.

 

                Já a Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO) decidiu adotar o protocolo orgânico como certificação. “Nosso objetivo é agregar valor, respeitando a sociedade e o meio-ambiente”, destaca o presidente da ABPO, Leonardo Leite de Barros, ressaltando as especificidades inerentes ao gado pantaneiro. A Associação tem 10 associados, em uma área de 115 mil hectares, com 60 mil cabeças. O abate mensal é de 500 animais.

 

                Segundo Barros, não há dúvidas de que a pecuária do Pantanal é uma atividade econômica sustentável, que atende a requisitos históricos, culturas e geográficos. “Já são 200 anos de atividade e o Pantanal permanece com 87% da vegetação original”, indica. O presidente da ABPO não se furtou a fazer um balanço mais geral do evento. “Estamos na Rio+20 para reconstruir as besteiras que fizemos lá atrás. Todos somos responsáveis. Apontar vilões não é solução”, disse.

 

                Para Leonardo Leite de Barros, a Conferência pode ser um ponto de partida para a adoção de uma nova liderança, que teria como meta reverter uma situação insustentável. “Esta nova governança tem que estipular metas auditáveis rumo à sustentabilidade. São tarefas globais e medidas simplistas devem ser repudiadas neste momento”, concluiu.

 

SISTEMAS DE PRODUÇÃO

 

                A agropecuária brasileira vem apresentando ao mundo sistemas de produção e tecnologias que visam atender aos preceitos de sustentabilidade. Reunidas sob o Programa ABC – Agricultura de Baixo Carbono -, estas práticas estão contribuindo para garantir o cumprimento das metas de redução de emissão de carbono, assumidas durante a COP-15.

 

                Durante a Rio+20, alguns exemplos e seus benefícios foram reforçados. O vice-presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (Febrapdp), Franke Dijkstra, disse que a tecnologia é sustentável, contribuindo para preservar o ambiente com maiores níveis de produtividade. “Utilizamos apenas 8% da área brasileira para produzir. E temos 20% da área do país agricultável”, lembra Dijkstra. Segundo ele, o Brasil é o País do futuro com a inclusão do plantio direto. “Temos terra, clima e homens para aumentar a produção sem danos ao meio ambiente”, reiterou. Em 40 anos de adoção, 60% da área de produção do Brasil é feita através do plantio direto.

 

                O representante da ABCZ – Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), João Brito, destacou que a prioridade da entidade, e da pecuária brasileira em geral, é verticalizar a produção, através da produção integrada. A ABCZ está incentivando os produtores a adotarem a Integração Lavoura, Pecuária e Florestas (ILPF), através da campanha “Ponha seu Boi na Sombra”, que visa manter a floresta nativa ou amplia o plantio de eucalipto. “Só vejo vantagens na ILPF”.

 

                Brito disse ainda que todas as ações da pecuária a partir de agora são naturalmente sustentáveis. O pecuarista tem a missão de produzir mais em áreas menores. “Temos muita área degradada. A recuperação destas áreas será voltada à agricultura”, frisou. Os desafios, portanto, são populariza a genética e a recuperação das pastagens através de manejos sustentáveis, como a ILPF.

 

                Já o superintendente de energias renováveis da Itaipu Binacional, Cícero Bley Júnior, apresentou as ações da empresa em prol da expansão do uso do biogás. “Queremos transformar o biogás em um produto do agronegócio”, propôs, ressaltando que os desafios neste sentido são investir em tecnologia e capacitação, maior acesso ao crédito, políticas públicas adequadas, pesquisa e regulação. Bley lembra que o biogás pode ser utilizado pelo produtor para suprir a energia nas propriedades e ainda há a possibilidade de vender o excedente. “Esta é uma tecnologia importante do Programa ABC e tem muito espaço para crescer”, conclui.

 

INTEGRAÇÃO LAVOURA, PECUÁRIA E FLORESTA

 

                               O exemplo da Fazenda Santa Brígida, em Ipamerí, no sudoeste de Goiás, resumiu os benefícios e os resultados positivos da adoção da Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF), combinando melhores resultados econômicos com preservação do meio ambiente. “A Santa Brígida usa o melhor da agricultura intensiva e também da agroecologia, o que resulta em colheitas fartas e crescentes, com uso intensivo de insumos e melhora nos atributos de sustentabilidade do solo”, destacou engenheiro-agrônomo Roberto José de Freitas, um dos responsáveis pelo processo de adoção do sistema de integração, no ano de 2006.

 

                A Fazenda possui 922 hectares, sendo que 600 são destinados à ILPF. A situação em 2006 era muito ruim. O clima na região não era o mais adequado, com grandes períodos sem chuva, e o solo era ácido e com baixa produtividade.. A partir daquele ano, a associação entre a Santa Brígida, Embrapa e John Deere fez com que a Integração Lavoura e Pecuária fosse adotada em todos os anos. Em 2008/09, a plantação de eucaliptos deflagrou a prática de Integração Lavoura, Pecuária e Floresta.

 

                Neste período, a produtividade da soja pulou de 2.400 quilos por hectare para 4.080 quilos por hectare, bem acima da média nacional. O rendimento do milho mais que dobrou, pulando de 4.800 quilos para 10.800 quilos por hectare. No caso da pecuária, a produtividade passou de 2 arrobas para 16 arrobas por hectare, a idade média de abate de 4 para 3 anos e o custo de produção de carne baixou de 73 reais para 34 reais por arroba.

 

                A proprietária da fazenda, Marize Porto Costa, destacou a exploração sustentável da Santa Brígida. “Recuperamos quase 1.000 hectares de solo degradado. Era uma propriedade que não dava lucros, economicamente inviável. A adotar os sistemas de integração, assumidos uma prática complexa, mas completa, que exige pessoas preparadas para gerir e planejar. Ainda temos gargalos, mas os resultados são muito bons”, explicou.

 

                O pesquisador da Embrapa Solo do Rio de Janeiro, Luís Hernani, lembrou que a ILPF é o ideal que se busca dentro do sistema de produção agropecuária. “Os resultados são surpreendentemente bons, mas temos que desenvolvê-lo de maneira correta, obtendo alta rentabilidade com benefício ao meio ambiente”, resume.

 

 
 
 
 
 
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