28/08/2008  
Os Efeitos do Aquecimento Global na Agricultura Brasileira

Agricultura em ebulição

Estudo expõe alterações e prejuízos para agricultura

Governo em ação
Embrapa livra agropecuária de culpa e mostra saídas
Integração lavoura-pecuária: inovação Tupiniquim que deu certo

Aquecimento global desafia soja

Café pode não ter que sair do lugar

Cana-de-açúcar: beneficiada pelo aquecimento
Milho safrinha: cultura de risco ou opção?
Mais quente, mais úmido, mais trigo
Na contramão: aquecimento global?
Expediente
 

AGRICULTURA EM EBULIÇÃO

Assunto controverso e recorrente, o aquecimento global ameaça alterar a geografia da produção agrícola brasileira. Diante deste cenário, uma pergunta persiste: o Brasil está preparado para enfrentar estas mudanças?

Lançado no dia 11 de agosto, durante o 7o Congresso Brasileiro de Agribusiness, em São Paulo, o estudo "Aquecimento Global e a Nova Geografia da Produção Agrícola no Brasil", elaborado em conjunto pela Embrapa e pela Unicamp, trouxe dados alarmantes e repercutiu com a força de um tornado. Se nada for feito para reduzir os danos das mudanças climáticas ou se os investimentos em pesquisas permanecessem estagnados, os prejuízos econômicos por conta da elevação das temperaturas chegariam a R$ 7,4 bilhões em 2020 e subiriam para R$ 14 bilhões em 2070.

Além das significativas perdas, o mapa da agricultura brasileira sofreria intensas modificações, com o café se deslocando da região Sudeste para o Sul do país e com a soja praticamente se inviabilizando nos estados do Sul. Diante desta alteração significativa no cenário, as conclusões do estudo tiveram ampla cobertura da imprensa e serviram de subsídio para os ambientalistas, presentes ao evento, colocarem a agricultura em xeque.

Discutir e avaliar o impacto do aquecimento global - mesmo que sua ocorrência não se consolide ainda como uma teoria consensual - sobre a agricultura não é novidade no setor. Mas pela primeira vez um estudo colocou o tamanho das imprecações e o valor do prejuízo no papel. E o trabalho da Embrapa, mesmo que desconsidere o avanço tecnológico que certamente ocorrerá no período, acendeu o sinal amarelo e trouxe alguns questionamentos. O principal deles: a agricultura brasileira está preparada para enfrentar os prováveis problemas decorrentes da elevação gradual das temperaturas? Outro: o que está sendo feito para amenizar o impacto do aquecimento global?

Parte das respostas foi dada pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Para ele, o levantamento servirá como base para o país encaminhar variedades adaptáveis a esta situação. "Já há cerca de 220 projetos de pesquisas neste sentido. Estamos trabalhando para se adequar a este novo cenário. O país está investindo em pesquisa e já reforçou os recursos, visando amenizar os prejuízos projetados no estudo", explicou o ministro.

Novas práticas e investimento em pesquisa

Responsável pelo estudo, o professor Eduardo Assad, da Embrapa, deu a receita para que o quadro seja revertido. "Já foi comprovado que 75% da emissão de gases no Brasil é resultado do desmatamento e das queimadas. A agricultura tem que reduzir estes processos", apontou, defendendo também práticas agrícolas que diminuam a emissão de carbono e aumentem o resgate, como o plantio direto na palha e a integração lavoura-pecuária.

"A Embrapa já tem pesquisas voltadas a diminuir o impacto do aquecimento sobre a agricultura brasileira, mas os investimentos ainda são tímidos. O esforço tem que ser ainda maior e ainda temos tempo para reverter ou amenizar a situação", defendeu.

Segundo o estudo, a soja, principal cultura de exportação brasileira, poderá sofrer uma perda econômica de R$ 4 bilhões em 2020, com uma redução de 24% da área apta para plantio no Brasil. Em 2070, estes números seriam de R$ 7,6 bilhões e de 40%, respectivamente. Os maiores prejuízos seriam sentidos na região Sul. Para o café, o estudo indica prejuízos econômicos de R$ 882 milhões em 2020, com uma queda de área apta ao cultivo de 9,48%. Estes números passariam para R$ 3 bilhões e 33% no cenário mais pessimista do estudo.

Das culturas avaliadas, a cana-de-açúcar seria a maior beneficiada pelo aquecimento global. Para 2020, a área cultivada com a gramínea poderia pular dos atuais 6 milhões para 17 milhões de hectares. Áreas no sul do Brasil, hoje com restrições ao cultivo, podem se transformar em regiões de potencial produtivo entre 10 e 20 anos.

As mudanças no comportamento do clima

Especialista em aquecimento global e seus impactos no cenário climático, acumulando prêmios e títulos a seu currículo, o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Carlos Nobre, alerta que o comportamento das temperaturas no futuro pode ser projetado com menos incertezas. "São previsões mais fáceis de serem feitas", garante, alertando, no entanto, que se trabalha com faixas de variação, que levam em conta o nível de emissão de gases de efeito-estufa.

"A emissão de gases de efeito-estufa é um fator importante e que não conseguimos prever, pois depende de decisões humanas e do que estamos dispostos a fazer para reduzi-la". Diante deste impasse, Nobre trabalha com cenários. No mais otimista dos cenários, com drástica redução na emissão, as temperaturas subiriam 2 graus centígrados até o final do século. Na pior das hipóteses, este aumento ficaria em 4,5 graus.

Já em relação ao regime de chuvas, as projeções são mais difíceis. "Na estação chuvosa, o regime não deverá se modificar muito no Sul e no Sudeste. Já na estação de seca, a tendência é de menos chuvas, em um período onde o regime já é escasso. Ainda há uma certa incerteza em relação à região amazônica. Já no Nordeste, a previsão é de menos chuvas", resume o pesquisador.

Outro ponto a ser considerado pela a agricultura é a concentração de gás carbônico na atmosfera que, até certo ponto, não afeta a produtividade. "Até certo ponto de CO2, a fotossíntese aumenta, favorecendo os rendimentos. Já as temperaturas mais elevadas tendem a reduzir a produtividade, principalmente para os grãos", explica.

As gramíneas, como a cana-de-açúcar, têm mais capacidade para absorver temperaturas elevadas. "Até 4 a 5 graus mais elevadas, as temperaturas são aceitáveis para a cana-de-açúcar, que também 'gosta' de mais gás carbônico para a fotossíntese". Os regimes de chuvas terão maior variabilidade. Ou seja, os veranicos tenderão a ser mais longos e mais intensos, alternados com períodos de chuvas mais longos. O regime tende a variar mais entre os extremos. "E isso é ruim para a agricultura", completa.

Colocando para pesar na balança as alterações projetadas para o clima e os prejuízos econômicos estimados, a Agência SAFRAS saiu a campo para tentar diminuir as dúvidas e apresentar o que o Brasil está fazendo para adequar o crescimento da produção agrícola e os obstáculos que o aquecimento global prometem provocar. Consultando meteorologistas, agrônomos e demais especialistas, SAFRAS disponibiliza a seus assinantes um cenário do que poderá ocorrer com a agricultura brasileira diante deste desafio.