29/08/2008  
Os Efeitos do Aquecimento Global na Agricultura Brasileira

Agricultura em ebulição

Estudo expõe alterações e prejuízos para agricultura

Governo em ação
Embrapa livra agropecuária de culpa e mostra saídas
Integração lavoura-pecuária: inovação Tupiniquim que deu certo

Aquecimento global desafia soja

Café pode não ter que sair do lugar

Cana-de-açúcar: beneficiada pelo aquecimento
Milho safrinha: cultura de risco ou opção?
Mais quente, mais úmido, mais trigo
Na contramão: aquecimento global?
Expediente
 

INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA: INOVAÇÃO TUPINIQUIM QUE DEU CERTO

Entre as práticas que reduzem a emissão de gases de efeito estufa, a integração lavoura-pecuária já foi testada e aprovada no país e serve de exemplo para o mundo

         Estudo publicado em janeiro desse ano pelo Greenpeace mostra que a pecuária e, por conseqüência, a produção de carne, produz ampla variedade de impactos no clima, que vão desde emissões diretas de gases pelos rebanhos, ao manuseio de adubos e uso de agroquímicos. O arroto do gado, na pré-digestão, ou a fermentação entérica (intestinal) contribui com a maior parte das emissões globais de metano (cerca de 60%). De acordo com o estudo, de todos os tipos de pecuária de corte, a criação de carneiros e de bovinos são as que têm maior impacto sobre o clima, com potencial de aquecimento global de 17 e 13 kg de CO2 equivalente, por quilo de carne, respectivamente, enquanto a criação de suínos e aves tem menos da metade desse valor.

         A emissão de metano à atmosfera pode ser minorada pela melhor qualidade da dieta, que está associada ao melhor manejo do pastejo, à desfolha, à suplementação e ao uso de condicionadores ruminais. Contudo, o coordenador do Programa Agricultura e Meio Ambiente do WWFBrasil, Luiz Fernando Laranja da Fonseca, enfatiza que essa redução é quase irrelevante e impossível de ser evitada, pois se trata de um processo fisiológico. "Todas as medidas adotadas em relação à liberação de metano ao meio ambiente não alteram mais que 10% as conseqüências", afirmou o coordenador.

         Como conciliar produção e preservação num país que detém o maior rebanho comercial do mundo - cerca de 200 milhões de cabeças - e é líder mundial em exportação de carne bovina, é um desafio que cresce de tamanho, principalmente quando o enfoque é a implantação de um modelo de desenvolvimento sustentável.

         "Não há como parar a produção. O caminho são sistemas mais sustentáveis, poupadores de energia e de outros insumos agropecuários. A integração-lavoura pecuária com plantio direto e a integração lavoura-pecuária-florestas, também com plantio direto, são possibilidades concretas", diz o pesquisador Ramon Alvarenga, da Embrapa Milho e Sorgo, de Sete Lagoas (MG).

         Conforme o pesquisador, não há dados oficiais que quantifiquem a adesão à integração lavoura-pecuária, mas a cada dia mais produtores aderem ao sistema. "Todos os dias recebo consultas sobre isso, de produtores que tomaram conhecimento ou viram o sistema em algum lugar", observa.

Resultados na prática

         Um pecuarista engajado na proposta e incentivador de novos adeptos é o ex-ministro da Agricultura no governo Geisel, Alysson Paolinelli. "É o maior garoto propaganda da Integração Lavoura Pecuária e da Integração Lavoura-Pecuária-Florestas. O que ele fala mundo afora já testou e aprovou na prática. Os resultados dele são fantásticos", diz Ramon.

         Em maio último, durante palestra magna na 5a. edição do Enipec, em Cuiabá (MT), Paolinelli disse que o Brasil, através da integração lavoura-pecuária, irá mudar o conceito de produção no mundo. "É uma questão de começar a experimentar. É uma inovação e, portanto, caminha com a própria vantagem. No entanto, se houvesse um esforço maior de governos, teríamos soluções muito maiores", alfinetou o ex-ministro.

         Paolinelli, que é produtor e faz integração com milho e soja, vem baixando custos de suas lavouras. No caso da pecuária, disse que os pastos melhoraram e que vem tendo um ganho de peso maior por hectare/ano.

         "Minha média está em torno de 800 gramas/dia, só com sal mineral, enquanto tenho a pastagem renovada". Para o ex-ministro, a integração lavoura pecuária é o supra-sumo em relação ao plantio direto, uma vez que é um plantio direto usando duas culturas num mesmo tempo, num mesmo ano, mais econômica e com resultado ecológico muito mais favorável.

         Na sua opinião, a lavoura-pecuária permite intervenção menor no solo, plantio direto e cobertura vegetal da pastagem através do uso de milho, soja, algodão ou girassol, propiciando a retirada dessas plantas a um custo muito baixo com vantagens comparativas, especialmente após o segundo e terceiro ano. "É uma inovação tupiniquim, bem brasileira, mas que dá um novo conceito de manejo de recursos naturais", avalia Paolinelli.

Amenizando efeitos do aquecimento

         Conforme o engenheiro agrônomo da Embrapa Gado de Corte, Roberto Giolo, a ILP é um passo além, porque permite que o solo fique coberto com uma forrageira que será utilizada para produção animal e não apenas como cobertura de solo. "Deve-se lembrar, contudo, que a ILP necessita de condições climáticas adequadas para sua implantação", observa. Quanto à redução de gases causadores do efeito estufa, principalmente gás carbônico (CO2), a ILP, como mantém o solo coberto com plantas ou restos delas, contribui com carbono fixado no solo, diminuindo sua liberação para a atmosfera.

         Segundo o relatório do IPCC/ONU - Novos Cenários Climáticos - de 2007, a concentração de dióxido de carbono, de gás metano e de óxido nitroso na atmosfera global tem aumentado drasticamente como resultado de atividades humanas desde 1750. O aumento global da concentração de dióxido de carbono ocorre principalmente devido à mudança no uso do solo, enquanto o aumento da concentração de gás metano e de óxido nitroso ocorre principalmente devido à agricultura. Mais de um terço de toda a emissão de óxido nítrico à atmosfera são decorrentes de atividades humanas, principalmente, devido à agricultura.

         O plantio direto surgiu justamente como uma alternativa para evitar a liberação do gás carbônico pelo solo descoberto, procurando não revolvê-lo e mantê-lo coberto, em associação à rotação de culturas.

Agricultura pode impactar menos no meio ambiente

         Ramon Alvarenga, da Embrapa Milho e Sorgo, diz que o plantio direto e a integração-lavoura pecuária são caminhos que devem ser perseguidos. Destaca, também, a possibilidade de inclusão de árvores estrategicamente dispostas nas glebas de produção com a finalidade de produzir madeiras para serrarias ou postes. "Estas árvores definitivamente vão imobilizar carbono. E não é só isso. Árvores produzidas na Integração Lavoura Pecuária Floresta, a medida que aumentam a oferta de madeiras no mercado, contribuem marcadamente para diminuir a pressão de desmatamento das florestas acompanhadas de queimadas", enfatiza.

         De acordo com o pesquisador, soma-se a isto, o fato de que o Brasil tem extensas áreas de pastagens degradadas passíveis de recuperação mediante um planejamento. "Só no Cerrado existem cerca de 60 milhões de hectares dessas áreas. Mais da metade destas podem ser cultivadas com lavouras-pastagens produtivas-florestas plantadas. Já pensou em quanto isso pode reduzir a abertura de novas áreas através da derrubada de florestas?" coloca o pesquisador. Ele conta que a WWF fez um estudo que mostra que para cada hectare recuperado é possível reduzir 1,8 hectares de desmatamento.

         "Com certeza, há muito como diminuir o impacto da agricultura sobre o meio ambiente. Existem muitas tecnologias disponíveis", reconhece.

          O uso de fertilizantes nitrogenados também se configura em um problema para o futuro, tendo em vista que boa parte é derivada da indústria de petróleo. Conforme o coordenador do Programa Agricultura e Meio Ambiente do WWFBrasil, tem de se prestar atenção especial ao óxido nitroso, pois tem efeito mais significativo sobre o aquecimento global que outros gases.

         A tendência é o uso mais eficiente de nitrogenados, que envolva práticas conservacionistas para evitar perdas por erosão, como a agricultura de precisão - que é capaz de dosar o nitrogênio milimetricamente -práticas de manejo para evitar perdas por volatilização (amônia, N2O) e lixiviação (nitrato), uso de cultivares selecionados para melhor eficiência de uso desse nutriente, uso de leguminosas em consórcio e/ou rotação.

         Roberto Giolo acredita que o primeiro passo é utilizar a terra de acordo com sua aptidão para cultura "x". Depois, o ideal é manter o solo coberto pelo maior tempo possível. "Daí entram as estratégias de manejo como o plantio direto, a ILP associada ao plantio direto, o uso adequado das pastagens e os sistemas agrossilvipastoris. Um outro ponto chave - ressalta -  é o não-uso do fogo como prática agrícola. Nesse sentido, o Brasil vem aumentando as áreas com plantio direto desde a década de 90, com programas específicos para recuperação de pastagens degradadas desde 2000, com grandes incentivos à ILP e, mais recentemente, à ILPF (integração lavoura-pecuária-floresta, ou sistemas agrossilvipastoris), vem aumentando a fiscalização e o rigor no cumprimento da legislação florestal, incluindo as queimadas.

         O agrônomo ainda ressalta a participação do componente arbóreo na pastagem. "Além de contribuir para o bem-estar animal e, conseqüentemente, para a produção e qualidade do produto, também seqüestra mais carbono ao sistema", observou. A consorciação com leguminosas permite uma dieta de melhor qualidade e pode contribuir para minimizar a emissão de metano pelo animal em pastejo.

O Brasil na questão ambiental

         Nos últimos anos, o Brasil vive um dilema. De um lado, há forças politicas organizadas buscando minimizar os efeitos negativos da expansão da agricultura sobre o meio ambiente e, de outro, há os que primam pela produtividade e subestimam a questão ambiental. Do ponto de vista do coordenador, se for feito um balanço da preservação ao meio ambiente, o resultado não é muito positivo. "O Brasil não está fazendo o suficiente, basta olhar para a Amazônia", lastimou.

         Entretanto, o país avançou bastante na ILP e, mais recentemente, na ILPS. Mas há que expandir muito mais. "Temos tecnologia muito bem definida. Não é por falta dela que o produtor não utiliza esse tipo de produção", salientou Fonseca, exemplificando a Região do Cerrado, que é a mais próspera nesse tipo de cultivo no Brasil. Isso em função do clima - abundância de sol e calor e produção de biomassa. "A técnica da ILP pode ser melhorada. Precisamos apoiar a pesquisa sempre e disseminar essa técnica".

         A ILP ajuda o Brasil a se aproximar de uma agricultura sustentável. De acordo com o coordenador, o país tem conhecimento acumulado para fazer uma agricultura desse tipo. "Hoje não é, mas temos condições de produzir alimento para todo mundo, muito mais do que temos hoje, sem precisar derrubar uma árvore", finalizou.